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Consumo inconsciente

Creme contra
a invisibilidade

25 jan 2009

Para vender cosmético, anúncio apela para um dos maiores temores de qualquer mulher: ser vista em detalhes.

Imagine se um dia você acordasse, fosse se arrumar para um compromisso e descobrisse que aquela meia dúzia de cosméticos “indispensáveis” para a sua vida tivesse desaparecido da face da Terra. Sim, justamente na manhã  daquela reunião importante ou daquela aguardada entrevista de emprego, você teria de sair de casa com a mesma cara lavada do espelho do banheiro. Sem corretivo, sem batom, sem rímel, sem blush, sem nada!

Sinceramente, você encararia essa situação tranquilamente? As avessas a maquiagens talvez responderiam que sim, principalmente aquelas com pele de pêssego e cílios curvados pela mão de Deus. Mas maioria de nós certamente se sentiria um pouco desconfortável sem uma corzinha nos lábios ou uma milagrosa camada de pó que oculta noites mal dormidas.

Ser vista sem artifícios, em detalhes, talvez seja um dos maiores medos que toda mulher sente. Porque mostrar a verdadeira face significa virar alvo de duras críticas, externas e, principalmente, internas. Quer dizer estar longe do ideal de pele permanentemente impecável e de bochechas perfeitamente coradas. É ser confundida com uma pessoa abatida ou virar tema de piada.

Sabendo desse nosso medo, uma empresa de cosméticos começou a veicular um anúncio nas televisões européias que explora esse sentimento em seu ápice: no momento em que surgem as primeiras rugas. No filme, uma mulher de aproximadamente 40 anos se protege das pesadas gotas de água que caem sobre uma cidade, “pegando carona” em guarda-chuvas de gentis pedestres. Enquanto ela caminha grudada a um deles, uma voz em off propõe às consumidoras o uso do novo creme anti-rugas da marca em questão para que elas possam ser observadas em detalhes sem constrangimentos.

Com o slogan “Atreva-se a ficar mais perto”, a campanha escancara algo que todas nós sabemos, mas que preferimos varrer para debaixo do tapete: envelhecer é ficar invisível! No caso de nós, mulheres, isso é ainda mais evidente. Desaparecemos a medida que nossos organismos vão parando de ovular, já que nossa existência parece estar justificada somente pelo fato de sermos reprodutoras e parceiras sexuais.

Prova disso é a diferença no tratamento às celebridades que já passaram dos 40 anos. Ao mostrar imagens do ator Brad Pitt - que do alto de seus 45 anos, não parece fazer muito esforço para esconder suas rugas - um programa de TV mostra a flacidez em volta de seus olhos sem comentar absolutamente nada. Com Nicole Kidman, no entanto, a história é diferente. Fotos da atriz deformada por aplicações de botox no rosto são exibidas à exaustão, enquanto apresentadores disparam uma saraivada de críticas à musa que exagerou em sua tentativa de ser vista de perto sem constrangimentos.

Ser vista de perto, sem medo, é tudo o que sempre quisemos. Talvez por isso a campanha desse creme anti-rugas seja um sucesso. Porque ela nos dá a ilusão de visibilidade justamente no momento em que começamos a ficar invisíveis. Porque ela nos propõe um pouco mais de atrevimento, mesmo que ele esteja só possa ser encontrado em uma perfumaria.

Quando a juventude se vai, sentimos que desaparecemos junto com ela. Mas a nossa visibilidade obviamente não está condicionada à nossa faixa etária, por mais que o mercado publicitário diga o contrário. Ela está em nossas atitudes, em nossa independência de potinhos e estojinhos que carregamos na bolsa.

Este artigo não é um tratado contra os cosméticos, nem um pedido para que todo mundo jogue seus apetrechos no lixo. É apenas um manifesto pelo direito de existir de cara limpa. De exibir suas rugas sem ter de cumprir pena de reclusão. De não se auto exigir a perfeição que nem mesmo as estrelas de Hollywood têm.

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5 comentários »

  1. Ótimo artigo, é verdade quando você diz que o envelhecimento da mulher é mais criticado que os homens. Aí vale tudo para disfarçar a pele.
    Obrigada pelo texto

  2. Olá, Nanci
    Tudo não!
    Esse estica-e-puxa que muitas mulheres estão fazendo é sofrimento demais, não acha? E o pior é que é como secar gelo, não há tratamento que impeça a passagem do tempo.
    Um abraço

  3. [...] você acordasse, fosse se arrumar para um compromisso e descobrisse … Veja o post completo clicando aqui. Post indexado de: [...]

  4. [...] fosse se arrumar para um compromisso e descobrisse que aquela … Veja o post completo clicando aqui. Post indexado de: [...]

  5. Pois é, Marta, o que continua me irritando nesta área é constatar o poder ilusório da propaganda. Mesmo indo a uma dermatologista e ouvindo dela que não adianta nada usar os cremes que prometem manter a visibilidade, a propaganda argumenta o contrário e vence. As mulheres insistem em fazer uso desses produtos achando que em algum momento eles vão contradizer a tragetória do ser humano. Não basta ter a pele melhorada, ela tem que ser jovem sempre!!!

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