Livros, Recomendados
Ela mudou as nossas vidas
Livro: O Segundo Sexo (volumes 1 e 2), de Simone de Beauvoir (Editora Nova Fronteira)
Você sabe quem foi Simone de Beauvoir? Se a sua resposta for negativa, não se sinta mal. Nem mesmo estudantes de filosofia e de outras ciências humanas sabem discorrer sobre ela, nem sobre sua obra, portanto relaxe! Resumidamente, Simone de Beauvoir foi uma filósofa muito importante do século 20 que deixou um legado de diversos romances, memórias e ensaios. Seu livro mais famoso foi o polêmico “O Segundo Sexo”, que este ano chega aos 60 anos de vida.
Por que ele ficou tão conhecido? Bom, há várias respostas para esta pergunta, mas talvez uma delas seja o fato de “O Segundo Sexo” ter sido o primeiro livro a oferecer um raio X tão abrangente e aprofundado da situação social da mulher ao longo da história. Nele, Beauvoir demonstra, com clareza, o que muita gente ainda hoje não consegue ou não quer enxergar: a posição de subordinação e inferioridade que é imposta sobre nós, mulheres.
Para abordar essa incômoda realidade, Beauvoir passou anos fazendo uma intensa e detalhada pesquisa. O resultado foi uma reflexão de mil páginas que caiu feito bomba entre pensadores e formadores de opinião da época. Em sua análise, a filósofa questiona, por exemplo, o nosso papel dentro da sociedade. Segundo ela, por mais que o mundo tenha passado por diversas transformações, nós, mulheres, continuamos como coadjuvantes em nossas vidas.
Os protagonistas, segundo Beauvoir, continuam a ser os homens, que ditam as regras enquanto nós aceitamos tudo passivamente. Parece duro? De fato o que ela diz, além de amargo, é polêmico. Mas quando paramos para pensar, por exemplo, em nosso silêncio diante dos salários reconhecidamente menores que ganhamos para desempenhar as mesmas funções dos homens, fica difícil de rebater essas críticas.
Outro questionamento feito em “O Segundo Sexo” está relacionado ao determinismo biológico, ou seja, a determinação de nosso comportamento de acordo com as nossas características biológicas. Seguindo este raciocínio, toda pessoa dotada de ovários e útero deveria ter, necessariamente, um instinto materno aguçado, algo que - como cansamos de ver nas páginas policiais dos jornais - está longe de ser verdade.
O ideal de maternidade que nos é imposto é apenas um exemplo do tamanho do impacto que o determinismo biológico tem sobre nossas vidas. Além do papel de “mamãe feliz” que persegue toda mulher deste mundo, há uma série de outros relacionados à idéia do “eterno feminino”. Dentro deste contexto, o que Simone de Beauvoir fez em 1949 foi nos oferecer instrumentos para questionar todos os clichês que nos são impostos.
Não, as mulheres não são naturalmente dóceis, submissas e maternais. É isso que Simone de Beauvoir quis fundamentar em seu livro, que não existe “coisa de mulher”, como dizem por aí. Ao ler isto, agora em 2009, talvez você ache essa idéia um tanto óbvia, certo? Mas se você for a uma banca de jornal, verá que essa “coisa de mulher” continua existindo. Porque todas as revistas femininas nos confinam em temas como moda, beleza e culinária, como se não tivéssemos interesse em outros assuntos.
As idéias contidas em “O Segundo Sexo” continuam atuais, muito atuais. Cada página pode ser fonte de acaloradas discussões em salas de aula, congressos ou bate-papos, mas por alguma razão misteriosa, elas são mantidas distantes da grande maioria das pessoas. No Brasil, o título sequer é encontrado nas livrarias. Quem quiser lê-lo, terá de se aventurar por sebos ou bibliotecas. E quem conseguir encontrá-lo, provavelmente terá dificuldade para achar alguém com quem discutir o teor denso deste livro.
Simone de Beauvoir, para muitos, não passa de uma prolongação do filósofo Jean-Paul Sartre, seu marido. O máximo que dizem é que ela escreveu um livro feminista, ou seja, algo secundário. Porque mesmo que ele aborde a situação de metade da humanidade, ele é feminista e feminismo é tido como algo menor, como um movimento de radicais peludas que queimam sutiãs.
Não é a toa que virou moda dizer “não sou feminista, sou feminina”, como se uma coisa excluísse a outra. Dentro deste contexto, é claro que quase ninguém vai ler ”O Segundo Sexo”. Para quê, se estamos em situação de igualdade com os homens? Hoje em dia, nenhuma mulher apanha do marido, nem é demitida do emprego quando engravida, não é mesmo?
Ironias a parte, o fato é que nós, mulheres, ainda temos um longo caminho de mudanças pela frente. Para enxergá-lo com mais clareza, nada melhor do que se munir de informações. É por isso que “O Segundo Sexo” é o livro recomendado por Camaleoa nesta edição. Não como resposta definitiva para as nossas perguntas, mas como porta para uma série de descobertas, de novas maneiras de ver o mundo bem além do manjado cor-de-rosa.

Muito bom esse artigo!
Acho que as mulheres deveriam pressionar as editoras a relançarem o livro.
Parabéns
Beijuuus
Também gostei do seu artigo, especialmente da forma clara de como você sintetiza o livro para quem não ouviu falar de Simone.
E concordo com a Mariana: uma pressão na editora não faria nada mal. Vou começar a perguntar…..
Um beijo
Pois é, essa história de “não sou feminista, sou feminina” se ouve por todos os lados mesmo. Dá uma vergonha falar com orgulho em defesa das mulheres! Como se falassem “lá vem aquela mala, amarga, mal-amada de novo com esse papo…”. Mas indo além do discurso, quando paramos para olhar na prática, as diferenças entre o que os homens e as mulheres podem fazer continuam sendo muito grandes. Como se metade do planeta tivesse nascido já com algo a menos. Ainda bem que tem gente como você lembrando que as coisas não são bem assim. Obrigada!
Malu Freire
Mariana, enviei um e-mail para a editora, mas ainda não obtive resposta.
De qualquer maneira, fiz uma pesquisa nas principais livrarias online do Brasil e não encontrei o livro disponível em nenhuma delas. Achei em uma delas apenas a versão importada de Portugal.
Abraços
Olá, Cida!
Que bom que você gostou.
Sobre a editora, veja a resposta acima que deixei para a Mariana.
Abraços
Olá, Malu
Obrigada pela mensagem carinhosa.
Não nascemos com algo a menos. Foram os homens que nasceram com algo a mais, hahahahaha! Tudo depende do ponto de vista, não. Sob o aspecto biológico, somos o sexo básico, pois a anatomia de todos nós no útero de nossas mães foi, por princípio, feminino.
Um abraço!