Desserviço público
Orgasmo todos os dias?
Revista conclama leitoras a alcançarem o máximo de prazer 365 dias por ano, transformando sexo em mais um dever social.
Responda com sinceridade. Quando você lê uma pesquisa que diz que o brasileiro faz sexo, em média, três vezes por semana, o que vem à sua cabeça?
Bom, a primeira coisa que vem à minha mente é que os entrevistados desse levantamento nunca tiveram semanas cheias, filhos pequenos ou problemas no trabalho. Imagino que eles também não saibam o que é cistite, candidíase, cólicas, dores abdominais, ciclo menstrual ou outras facetas de nosso organismo.
Ao me deparar com o resultado de uma pesquisa desse tipo, concluo que boa parte das pessoas ouvidas talvez desconheçam o valor de alguns momentos de recolhimento e de silêncio. Pode ser até que elas nunca tenham dormido abraçadas com seus parceiros ou parceiras, sem a menor pressão para “bater ponto” na lista de deveres sexuais.
Talvez seja por causa da necessidade dessas pessoas de cumprirem todos os requisitos de uma vida sexual “regular” que a publicação do texto a seguir se justifique. Ele foi retirado de uma revista feminina de grande circulação e repete o que está na maioria das publicações à venda nas bancas de jornais.
ORGASMO TODOS OS DIAS
O ÁPICE DO PRAZER É BEM-VINDO O ANO INTEIRO. PORTANTO DIVIRTA-SE COM 8 SUGESTÕES PARA CHEGAR AO CLÍMAX.
A matéria traz um passo-a-passo, bem parecido com aqueles guias de preenchimento de declaração de imposto de renda. Nele, você aprende a executar “posições certeiras para o seu orgasmo” e ainda enlouquece o parceiro. “Juramos que, só de ver, seu amor ficará doidinho”, diz a revista.
Realmente a revista cumpre a promessa de nos dar prazer. Nomes como “cachorrinho dorminhoco”, “gato manhoso” e “colher em brasa” para as posições são, de fato, perfeitos para umas boas risadas. Mas passada a graça com os apelidos ridículos das oito sugestões, fica um sabor amargo na boca.
Sexo parece ter virado obrigação social. Todo mundo precisa prestar contas sobre a frequência e a qualidade de sua vida sexual. Quem tem relações com uma periodicidade abaixo da média propagada vai de mal a pior, pobrezinho! Quem não goza todos os dias é um infeliz, daí a necessidade de bulas. Porque orgasmo virou remédio. E remédio é obrigação!

Sempre vale a pena passar por aqui. Você tira sempre uma sacada inteligente da manga. E o pior é que as pessoas pensam que quem não tá na média precisa se sentir por fora, por que afinal, quem não goza três vezes por semana é por que algum problema tem!
Eu não diria que o sexo virou um dever social, mas sim mais um indicativo - além da beleza, do bundão, do silicone e da casa na Barra da Tijuca - de status social. Transou mais de três vezes por semana é “cool”, transou menos é “fracassado”, a mulher dever ser uma baranga! No “cool” dessa gente.
Esse artigo me lembrou um trecho do livro que estou lendo.
Diz assim:
“Quero ser feliz. Para isso, preciso de modelos. Há os livros de auto-ajuda, há felicidade oficial da mídia. Quero ser feliz e, nas revistas, vejo os meus ídolos galãs, malhados, ricos, rindo entre modelos e apresentadoras. Quero ser feliz modernamente, mas carrego comigo lentidões, medos, idéias antigas de alegria, traumas, conflitos. Sinto-me aquém dos felizes de hoje. Não consigo me enquadrar nos rituais de prazer que vejo nas revistas.
Posso ter uma crise de depressão em meio a uma orgia, não tenho o dom da gargalhada infinita, posso chorar no auge de uma bacanal. ”
Arnaldo Jabor
Esse tipo de matéria, sobre orgasmos, posições de fazer seu parceiro pirar, como atingir o clímax. São apenas tapa buracos proporcionado pela mídia.
Assim fazem com que algumas pessoas não deixe de investir nesse “luxo” desnecessário. E ver que realmente há muito mais prazer nas coisas simples do que atingir o “status” do sexo perfeito.