Consumo inconsciente
Fragilidade ao volante
Anúncio de seguro especial para mulheres retrata motoristas do sexo feminino como um bando de Penélopes Charmosas.
Rosa para meninas, azul para meninos. Boneca para elas, carrinho para eles. Desde pequena, aprendi que tudo na vida deveria ser separado entre sexos. Na minha casa, era para ter sido assim, mas como fui muito sortuda, o plano deu errado.
Com dois irmãos e um primo por perto, descobri cedo que empurrar carrinhos pelas paredes me fazia mais feliz do que brincar de boneca. Fingir que era da S.W.A.T me parecia muito melhor do que fazer comidinha de plástico. Assistir a seriados como “Chips” ou “Super Máquina” me deixava mais animada do que ver ursinhos falantes na televisão.
Sei que não fui a única a cruzar essa clara linha que separava gêneros durante a infância. Muitas meninas daqueles tempos odiavam papéis de carta e quase morriam de tédio nas aulas de balé. O que elas queriam, de verdade, era apostar corrida com os meninos da rua e empinar pipa, livres de alcinhas, sainhas e fitinhas que escorregavam do cabelo.
Quase 30 anos se passaram, mas nesse mundo onde tudo deve ser categorizado, parece que quase nada mudou. Folheando uma revista feminina, me deparei com um anúncio que dizia, mais ou menos, o seguinte:
SEGURO AUTO MULHER
NÃO DEIXA VOCÊ A PÉ PORQUE SABE QUE VOCÊ ANDA DE SALTO ALTO
Em outras publicações, descobri novas versões da mesma campanha. Veja!
SEGURO AUTO MULHER
FEITO TÃO SOB MEDIDA PARA AS MULHERES QUE AJUDA A EVITAR RUGAS DE PREOCUPAÇÃO
SEGURO AUTO MULHER
PORQUE QUEM TEM QUE SUAR SÃO OS HOMENS
Achei curiosa essa interpretação da agência responsável por essa campanha sobre o que é ser uma mulher ao volante. É como se não existissem mulheres de sapatos baixos, nem mães que suam atrás de seus rebentos. No mundo encantado da publicidade, só há espaço para Penélopes Charmosas, aflitas, à espera de um heróico homem da seguradora para salvá-las.
Propagandas como essa incomodam.
Incomodam porque ignoram todas as mulheres que, um dia, preferiram azul a cor-de-rosa. Que ousaram gostar mais de matemática do que de educação artística. Que cresceram longe de maquiagens e hoje sabem até abrir o capô de um carro!
Será que o mercado publicitário vai nos enxergar como um exército de Barbies para sempre? Talvez. Neste mundo marcado pelo consumo, tudo vai depender da maneira como fazemos nossas opções na hora das compras.
Se você quiser manter o mundo separadinho, como fizeram conosco na nossa infância, siga todas as regrinhas de sempre na hora de fazer suas escolhas. Mas você não quer isso, eu sei! Se quisesse, não estaria lendo este texto até o fim.

Não é o fim da picada? Pelamordedeus!!! Eu sou do tipo que jamais faria o seguro do carro com essa seguradora só por conta dessa publicidade imbecil.
Na boa… prefiro ser tratada melhor. E se eu uso salto ou não, preferiria que o tratamento do meu carro, rosa ou não, cheio de lama ou não, com um formigueiro próprio dentro ou não, fosse simplesmente rápido e eficiente.
Na propaganda só falta dizer que os técnicos que trabalham na seguradora te atendem de coleira e cueca de couro. Pelamordedeus de novo!
Paula