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Por fora, bela viola…

14 jul 2008

Modelos estão desnutridas e com excesso de gordura corporal, segundo estudo médico. Mas cá entre nós: será que só elas estão assim?

Chocólatra. Foi em uma entrevista de uma famosa modelo que vi essa palavrinha pela primeira vez na vida. No começo dos anos 90, o tal vício em chocolates era citado por 10 entre 10 queridinhas das revistas para adolescentes. Quando alguém perguntava sobre o prato preferido delas, todas respondiam algo como pizza, hambúrguer ou qualquer variação da febre junk food da época. Sonho? “Fazer veterinária e adotar muitos bichinhos.” Fantasia sexual? “Fazer amor numa praia deserta.” Vício? “Cho-co-la-te!”

Todas as meninas da escola morriam de raiva das musas que eram magras por intervenção divina. Porque as modelos destoavam da angústia que todas sentiam diante dos ponteiros da balança. Era como se aquelas deusas fossem imunes ao valor calórico das bugigangas e novidades importadas que estavam aparecendo naqueles tempos de abertura econômica.

No intervalo das aulas, muitas meninas desfilavam com latas de batatas norte-americanas nas mãos, enquanto outras exalavam um forte aroma de melancia de uma nova goma de mascar. Nos shoppings, famílias inteiras faziam longas filas em novíssimas e estridentes praças de alimentação à espera de gordurosas pizzas de peperoni ou de caríssimos sorvetes de uma marca de nome impronunciável.

Mas aí, começou um fenômeno estranho. Paralelamente à orgia alimentar que se instalava em nossas vidas, as chocólatras das revistas começaram a sumir. Isso mesmo! Enquanto nossos pais abasteciam as geladeiras com litros e mais litros de refrigerantes em novas versões de garrafas PET, as pobres moças dos anúncios encolhiam. Dentro de roupas com dimensões apropriadas para a seção infantil, pernas pareciam braços e braços pareciam gravetos. 

Foi o começo da Era Kate Moss de beleza e dos freezers entupidos de pratos congelados e gordurosos. Por isso hoje, quase 20 anos depois dessas mudanças, não é de se estranhar que as modelos que desfilam na São Paulo Fashion Week estejam desnutridas e com excesso de gordura corporal. De acordo com uma pesquisa feita pelo Hospital do Coração de São Paulo, elas consomem muita proteína e poucas frutas. Por isso, têm graves problemas intestinais e metabólicos, além de fraquezas e cansaço crônico. Além disso, sete em cada 10 entrevistadas são sedentárias.

A notícia não deveria ser surpreendente, mas é. Porque essas modelos, sempre que paravam de perfil nas passarelas, pareciam esfregar nas nossas caras que éramos inadequadas, estranhas criaturas que engordam quando comem chocolates. Mas agora, essa pesquisa provou que todas nós estávamos erradas. Essas moças são humanas e também ganham uma massa de gordura sobre o corpo. A diferença é que elas conseguem se manter em pé apenas com porcarias e meia folha de alface, enquanto nós ingerimos tranqueiras e doses generosas de comida normal.

Passamos todo esse tempo idealizando as modelos e escondendo nossos corpos por culpa da indústria da moda e de cosméticos? Sim, mas não só dela. Porque se esse padrão das chocólatras esquálidas permanece, é porque alguém o está adotando no dia-a-dia. Como? Pense na quantidade de dietas malucas e de revistas de emagrecimento que surgiram nos últimos anos e se pergunte em quantas delas você embarcou. Nas vezes que você almoçou salada para poder devorar um monte de doces mais tarde. Nas suas mentiras sobre seu peso e altura e nas tentativas para entrar em roupas que deixavam marcas em sua pele.

Talvez seja hora de parar de enxergar as modelos como vilãs e questionar a maneira como você age em relação à sua alimentação e ao seu corpo. Dá tempo de mudar isso tudo. Pode ser que assim, a gente consiga construir um modelo bem mais divertido do que esse vigente. Mais democrático, prazeroso e, acima de tudo, mais ético.

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