Camaleoa Camaleoa

Desserviço público

Estamos exaustas? Jura?

7 jul 2008

Revista aborda a “epidemia da exaustão” que nos acomete, mas contribui diretamente para ficarmos cada vez mais esgotadas.

Se você acompanha os telejornais diários, provavelmente vai se lembrar das incontáveis matérias exibidas há alguns meses, que mostravam, em tom eufórico, a corrida dos consumidores às lojas. Eles compravam tudo o que viam pela frente, de carros a eletroeletrônicos. O crédito, diziam as reportagens, estava mais acessível e os juros, mais baixos.

Recentemente, o discurso nos telejornais mudou. “O brasileiro está cada vez mais endividado”, anunciava uma apresentadora com cara de velório. Citando um levantamento feito por instituições financeiras, o programa falava da quantidade de pessoas atoladas em montanhas de dívidas. E sentenciava: a culpa era daqueles que se iludiram com a onda de otimismo.

Ao assistir a essa mudança de enfoque, talvez você tenha se perguntado onde é que foram parar aquelas matérias que exaltavam a farra do crédito fácil. Parecia que elas nunca haviam sido feitas porque o tom do telejornal era de surpresa, como se todas as famílias endividadas deste País tivessem surgido por geração espontânea ou vontade divina.

No jornalismo feminino, a falta de coerência se repete. Veja, abaixo, um trecho de uma matéria publicada em uma famosa revista. O tema é a epidemia da exaustão que assola as mulheres.

ÀS VEZES, PARECE PESADELO. DEZ MIL COISAS PARA FAZER, TUDO-AO-MESMO-TEMPO-AGORA. METAS APERTADAS DEMAIS NO TRABALHO, FILHOS PRECISANDO DE ATENÇÃO, MARIDO IDEM E VOCÊ LÁ, NO FIM DA FILA… SENTINDO-SE CANSADA, DEPRIMIDA, GORDA. E SEM A MENOR IDÉIA DE COMO VAI VIRAR O JOGO. VOCÊ NÃO ESTÁ SOZINHA – PARECE HAVER UMA EPIDEMIA DESSES SINTOMAS ENTRE MULHERES: A EPIDEMIA DA EXAUSTÃO.

Nossa, parece que a publicação adivinhou nossos pensamentos! A matéria trazia relatos de mulheres exaustas como nós, além das opiniões de especialistas, que explicavam o porquê de tanto esgotamento. Tudo muito comovente, não fosse por um pequeno detalhe: todos os alertas feitos ao longo da reportagem contradiziam tudo, absolutamente, tudo que é publicado no restante da revista.

Enquanto o texto dizia que não devemos corresponder a todas as expectativas do mundo, o restante das páginas da publicação exaltava o ideal de mulher-moderna-bem-resolvida-eternamente-jovem-magra-boa-mãe-amante-insaciável-profissional-de-sucesso-consciente-de-seus-direitos-dona-de-um-guarda-roupa-repleto-de-bobagens.

Para quê, para quê detectar um problema e tratá-lo como um fenômeno isolado de todo o restante da revista? Em vez de aliviar, a publicação coloca ainda mais peso sobre as costas da leitora. Porque agora, além de precisar de espaço na agenda para ir ao trabalho, ao shopping, ao esteticista, ao cabeleireiro e à escolinha dos filhos, ela terá de arrumar tempo para o psicólogo, o endocrinologista e o psiquiatra. Só assim ela poderá se livrar da terrível epidemia da exaustão.

Claro que os profissionais da saúde podem ajudar, e muito, mas os veículos de comunicação também têm um papel fundamental nessa história. Em vez de transformarem tudo em doença, em culpa, em uma nova receita médica, as publicações poderiam criar conteúdo mais inteligente. Mas e aí? Quem compraria os novos antidepressivos? Quem seguiria todas as tendências da moda e cumpriria todas as obrigações estéticas?

Ah, deixa pra lá. Melhor não mexer em time que está ganhando. Vamos continuar assim: eles vendendo, nós comprando e todas nós nos esgotando.

1 comentário »

  1. É Marta, me sinto exatamente assim: exausta… um otorrino me deu diagnóstico de stress, depois de “lavar” meu ouvido 3 vezes só neste ano. Ele diz que estou stressada e, em contrapartida, meu ouvido produz mais cera que o normal. Só que o marketing está lá, fazendo me sentir frustrada por não conseguir alcançar os objetivos acima: “mulher-moderna-bem-resolvida-eternamente-jovem-magra-boa-mãe-amante-insaciável-profissional-de-sucesso-consciente-de-seus-direitos-dona-de-um-guarda-roupa-repleto-de-bobagens”.

    Com exceção do guarda roupas repleto de bobagens, porque não fui consumista assim, aliás, no critério roupa, calçados e afins, sempre fui consumista de menos.

    Por isso eu gosto de ler suas publicações, porque me fazem lembrar que eu sou humana, com todas as limitações que isto envolve.

    Sempre leio seus comentários, sai do orkut, mas estou sempre antenada no camaleoa e adoro este site. Embora essa seja a primeira vez que eu interajo com vcs.

    Um grande beijo pra vc… tenho saudades.

    Pat Guidini

Deixe seu comentário!