Consumo inconsciente
Seja inconseqüente
Campanha publicitária diz que você já pode detonar seus cabelos sossegada e se esquecer das consequências
Gastar os tubos com o cartão de crédito e receber uma fatura levinha no final do mês. Devorar quilos de bombons e fechar, sem esforço, o zíper da calça. Voltar bêbada de uma festa às 5h da manhã e estar bem disposta para uma reunião de trabalho quatro horas depois.
Fazer escolhas e não arcar com as conseqüências talvez seja uma das fantasias mais recorrentes em nossas vidas. Desde crianças, queremos o prazer de fazer o que der na telha sem sofrer com os efeitos colaterais. Queremos dedos na tomada sem choques. Banhos de chuva sem resfriados. Pedaladas sem tombos.
Quando viramos adultas, o sonho da inconseqüência permanece. Prova disso é a maneira como uma campanha publicitária, veiculada em diversas publicações femininas, explora essa antiga fantasia. Veja o trecho a seguir, retirado do texto de um dos anúncios.
BRINQUE COM SEUS CABELOS E ESQUEÇA AS CONSEQUÊNCIAS
(…)AS CONSEQUÊNCIAS DA TINTURA, DO CALOR, DA QUÍMICA E OS DANOS CAUSADOS NO DIA-A-DIA JÁ TÊM SOLUÇÃO.
VOCÊ FAZ O QUE QUER E NÃO SE ARREPENDE. AGORA SEU CABELO TAMBÉM NÃO.
Ninguém sabe explorar nossos anseios infantis tão bem quanto o mercado publicitário. Por meio de pesquisas caríssimas, eles confirmam o óbvio: que nós só temos tamanho. Lá no fundo, continuamos as mesmas crianças de sempre, querendo aprontar e escapar das broncas da mamãe. Tentando ousar sem correr riscos.
É tanta a nossa vontade de escapar das conseqüências de nossas escolhas que, um dia, o mercado resolveu atender as nossas preces. E foi assim que vieram as propagandas de produtos inúteis para quem quer arrebentar os próprios cabelos sem culpa. Ou ainda aquela campanha que diz que há coisas na vida que não têm preço, perfeita para compradores compulsivos.
Não é à toa que a inconseqüência seja o pano de fundo de muitas campanhas em destaque na mídia. Por meio dela, deixamos de ser agentes e nos tornamos vítimas das circunstâncias. É assim que culpamos o sistema de trânsito pela multa que recebemos por excesso de velocidade. É desse modo que responsabilizamos a correria do dia-a-dia pela vida sedentária que levamos.
Ser inconseqüente é bem mais do que uma brincadeirinha em um anúncio publicitário. É um modelo de vida. É uma postura que adotamos, mesmo sem nos darmos conta disso. Como mudar isso? Pensando em um dos significados da palavra inconseqüência, segundo o Aurélio: desconexão. Talvez esse seja o começo de uma conexão com o que realmente queremos. Algo que provavelmente estará bem longe de cremes para cabelos.
