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Tiro no pé

16 jun 2008

Reclamamos das restrições do mercado de trabalho, mas ajudamos a mantê-lo igualzinho. Pesquisa mostra que 85% de nós rejeitam chefes mulheres.

Por que nos boicotamos no trabalho?Será que um negro se incomodaria com o fato de ser chefiado por outro negro? E um judeu, ficaria contrariado por ter de obedecer às ordens de um colega da mesma religião? Difícil responder, não? Isso dependeria de uma série de fatores, mas é provável que, em muitos casos, o subordinado ficaria motivado ao ver um semelhante em posição de destaque no trabalho.

E uma mulher, será que ela teria aversão à idéia de ser comandada por alguém do mesmo sexo? A resposta é sim. De acordo com um estudo realizado pela pesquisadora Amanda Zauli-Fellows, da UnB (Universidade de Brasília), com quase 2 mil pessoas, 85% de nós acham que os homens são melhores chefes.

O resultado é intrigante. A pergunta que fica no ar é: se achamos que não servimos para chefiar, então como podemos esperar reconhecimento profissional? Como sonhar com salários dignos e mais respeito quando repetimos aos quatro ventos que não estamos aptas para liderar coisa alguma?

A resposta é simples: não existe nós. O termo “nós” não se aplica entre mulheres. Ele pode ser dito por grupos étnicos ou religiosos. Pode ser usado em torcidas de futebol ou agremiações estudantis. Mas na nossa boca, ele desaparece, como diz a filósofa Simone de Beauvoir na seção “Aspas” deste mês. Por isso, podemos achar que individualmente, “fazemos e acontecemos” num cargo de destaque, mas, no coletivo, temos a dolorosa percepção de que somos incompetentes.

Essa separação entre o “eu” e o “nós” não acontece somente neste caso. Já reparou como a responsabilidade das coisas que não dão certo é sempre do outro? O trânsito está infernal nas grandes cidades porque os outros entopem as ruas de carros. Os lixões estão abarrotados porque os outros produzem lixo em excesso. A administração pública está uma droga porque os outros não fiscalizam coisa alguma. Enquanto isso, compramos carros, gastamos com supérfluos e não aparecemos nem na reunião do condomínio.

Enquanto isso, reclamamos que as empresas dão menos oportunidades quando viramos mães, mas quando chega a nossa hora de contratar, preferimos alguém sem filhos. Achamos um absurdo ganhar menos para desempenhar a mesma função de chefia de um homem, mas dizemos por aí que chefe mulher é um horror. E assim, falamos feito ventríloquos. Posamos de vítimas, mas acabamos virando vítimas de nós mesmas.

3 comentários »

  1. Arrasou!!!! Falta ter consciência de nós mesmas, não só como mulheres, mas como seres humanos. Como é que vamos chegar a algum lugar repetindo bobagens machistas como esta até o fim dos tempos?? Demais o texto. Parabéns! Bjs

  2. Perfeito ! Acho que todo mundo já teve problemas em ter uma chefe…eu tive e por mero ciume fui demitida.
    Daí, fica esse estigma nos perseguindo: mulher é chata, pega no pé da equipe, etc.
    Eu só parei de falar assim, quando virei chefe e tive que ouvir que eu era chata que tava na TPM, etc que parei de ser mais uma crítica em potencial da liderança feminina. Hj tenho uma chefe mulher que adoro !!!

  3. Muito bem Lú, Tem mesmo fundamento suas observações.
    Mas gente, já tive ótimas chefes e outras nem tanto.
    Como já tive ótimos chefes e outros terríveis.
    A boa chefia, a perfeita liderança não está no sexo, mas sim
    na visão, na energia, na autoridade sem imposição. Tem que ter empatia.

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