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Entre cabelos e dentes
Em país de desdentados, consumo de produtos para cabelos supera, de longe, o de itens para saúde bucal
Alguém já viu uma amiga ir ao dentista para fazer uma limpeza de dentes antes de uma balada? E um grupo de moças animadas, escolhendo seus cremes e fios dentais nas prateleiras da perfumaria? Essas situações soam absurdas porque, obviamente, nunca acontecem. Apesar de ser uma questão de saúde, a higiene bucal é vista como algo secundário neste Brasil vaidoso e desdentado.
Agora experimente mudar um pouco as situações descritas acima. Em vez de limpeza de dentes, pense em uma amiga fazendo luzes e uma escova caprichada. No lugar de cremes e fios dentais, imagine alisantes e cremes antivolume nas cestinhas de compras das moças. Agora parece mais razoável, não? Claro que sim, porque neste País vaidoso e desdentado, ter cabelos lisos e loiros é muito mais importante do que gozar de boa saúde bucal.
Não é à toa que, no Brasil, a maior fatia do mercado de cosméticos, perfumaria e higiene pessoal seja o de produtos para cabelos, com 27,7% do total. Já escovas de dentes, cremes dentais e outros itens de limpeza bucal têm uma participação três vezes menor nesse bolo, apenas 9,2%, segundo dados apresentados pela Abihpec (Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos).
Nossas madeixas, nós sabemos, são bem mais do que meros amontoados de fios e isso não é de hoje, como explicou a filósofa Márcia Tiburi em um evento, realizado na última semana em São Paulo. Durante sua exposição, ela falou da importância dos cabelos sob vários aspectos, abordando mitos como o da Medusa ou as histórias de Rapunzel e de Sansão, mas lembrou que a vaidade não é parte da gente. “A palavra vaidade vem de vanitas, que é aquilo que é vão, passível de troca, que não vale mais.”
Vão ou não, o cabelo continua a ser visto como instrumento de poder e sedução, principalmente no Brasil, que é o maior consumidor de tintura loira do mundo, segundo a antropóloga Mirian Goldenberg, também presente no evento. Neste País onde, em breve, haverá mais negros do que brancos, segundo dados do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), as mulheres ainda esticam seus cachos e abusam da água oxigenada em busca de milagres genéticos.
Você acha absurdo o fato de um país com tantos negros e índios ser o maior consumidor de tintura loira do mundo? Não agüenta mais a ditadura da chapinha e outras imposições da indústria da beleza? Então fica aqui uma pergunta: com o que será que você mais gastou no último mês: com seu cabelo ou com sua saúde bucal?
Não, não estamos falando que devemos acabar com a vaidade, mas dar-lhe a devida importância. Se você não concorda com a quantidade enorme de exigências estéticas, será que é preciso ser mais uma a lotar os salões semanalmente? Gandhi já dizia: devemos nos tornar a mudança que queremos ver no mundo.
A propósito: você já passou fio dental hoje?


Nunca imaginei que a gente gastasse tão mais em cabelo do que em uma coisa essencial como cuidar dos dentes. Faz a gente parar para pensar mesmo. Alguma coisa está muito desproporcional. Obrigada pelo alerta, Marta!