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Luluzinhas no trabalho (parte 2)
Por que será que somos vistas como “menos comprometidas” quando nos tornamos mães?
No artigo anterior, falávamos sobre a imagem da mulher no mercado de trabalho. Apesar de tudo indicar que estamos conquistando cada vez mais espaço, sabemos que, no dia-a-dia, não vivemos essa maravilha toda. Graças ao preconceito velado, tão impregnado em todos os meios – inclusive nos corporativos -, ainda somos vistas como profissionais pouco objetivas e com um grau de comprometimento menor do que os homens.
A seguir, o testemunho, aqui reproduzido novamente, de um colega muito mais sincero do que qualquer gestor de recursos humanos.
“Quando o bicho pega, não dá para contar com as mulheres. Primeiro porque elas sempre perdem tempo falando sobre o que não interessa mais, em vez de resolverem as coisas.Segundo porque, quando são seis horas, elas pegam a bolsa e vão embora para buscar o filho na escola. Por isso, quando aparece um pepino, eu nem conto com elas. Já chamo os caras e a gente resolve.”
É sobre esta segunda parte que vamos conversar. Sobre o fato de sairmos no horário porque, para muitas de nós, o mundo não se resume à empresa onde trabalhamos. Por que será que, geralmente, somos nós que saímos mais cedo para atender os filhos e cuidar de assuntos domésticos, e não eles? Talvez pelo simples fato de assumirmos essas responsabilidades como tarefas exclusivamente femininas.
Voltando ao artigo de Maria Lucia Rocha-Coutinho (citado na edição anterior), intitulado “Novas Opções, antigos dilemas: mulher, família, carreira e relacionamento no Brasil”, quando o assunto é o papel que temos na sociedade, o nosso discurso é bem diferente da maneira como agimos. Em pesquisa realizada pela psicóloga a partir de entrevistas de mulheres universitárias com idades variando entre 18 e 28 anos, a percepção foi a seguinte:
(…) elas afirmam, sem hesitação, em um primeiro momento, por exemplo, que a mãe e o pai são igualmente responsáveis pelo cuidado dos filhos (…) logo a seguir se contradizem, afirmando que não há ninguém melhor do que a própria mãe para cuidar dos filhos, que a mãe é quem se sente e quem efetivamente tem maior responsabilidade sobre eles(…)
É isso mesmo: falamos uma coisa e fazemos outra. Repetimos aos quatro ventos que todas as tarefas são divididas, mas assumimos a bucha e ainda fazemos pose de moderninhas. Quer um exemplo? Pense naquelas mães que estagnaram suas próprias carreiras em favor da ascensão profissional do marido. Muitas delas podem ter escolhido isso porque realmente queriam se dedicar à vida materna. Outras, no entanto, agiram por pressão social.
É triste perceber que somos vistas como profissionais menos comprometidas com o trabalho quando nos tornamos mães. Mais duro ainda é notar que isso acontece, em muitos casos, apenas para cumprir uma convenção social. Porque hoje ainda é muito mais aceitável que uma mulher saia mais cedo para uma reunião escolar do filho do que um pai. Mas, quando ela faz isso, é porque não tem comprometimento com a empresa. No entanto, se é ele, a atitude é considerada “bonitinha”.
Certa vez, durante uma entrevista, a jornalista Fátima Bernardes comentou essa diferença. Ela disse mais ou menos o seguinte: “Quando viajo e as crianças ficam com o William, todo mundo fala que ele é um bom pai. Mas quando ele viaja e eu fico com elas, ninguém diz que sou uma boa mãe.”
Os preconceitos e convenções sociais estão presentes dos dois lados. Cabe a nós fazermos nossas escolhas e deixarmos de lado o comportamento de gado sobre a nossa vida profissional. Há muito que amadurecer porque, como diz Rocha-Coutinho em seu artigo, a mulher de hoje apenas multiplicou funções, mas ainda não dividiu responsabilidades.

O discurso hoje em dia é lindo. Parece que somos muito livres mesmo, mas é tudo papo furado! Lá no trabalho, ainda há muito preconceito com as funcionárias que têm filhos.