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Luluzinhas no trabalho (parte 1)
Será que somos menos objetivas dos que os homens em ambiente profissional?
Certa vez, um colega disse, em um momento de admirável sinceridade, o que achava sobre o desempenho das mulheres em ambiente de trabalho.
“Quando o bicho pega, não dá para contar com elas. Primeiro porque as mulheres sempre perdem tempo falando sobre o que não interessa mais, em vez de resolverem as coisas. Segundo porque quando são seis horas, elas pegam a bolsa e vão embora para buscar o filho na escola. Por isso, quando aparece um pepino, eu nem conto com elas. Já chamo os caras e a gente resolve.”
Se, ao ler o trecho acima, você ficou com o rosto quente de raiva, calma! Claro que é possível questionar tudo o que essa pessoa falou, mas não dá para fingir que nada disso acontece e que estamos com a bola toda no mercado de trabalho. O avanço feminino em diversas áreas profissionais até que soa bonitinho no Jornal Nacional, um pouco antes do “boa noite” sorridente dos apresentadores. Mas, na realidade, sabemos que os cargos mais altos continuam nas mãos dos homens.
Vamos por partes no desabafo descrito acima. A primeira pergunta que podemos nos fazer é: será que realmente nos falta objetividade, como disse o colega? Bom, para respondermos a essa questão, talvez seja interessante nos lembrarmos de algumas reuniões enfadonhas que temos de aturar no trabalho. Nesses encontros regados a boas doses de café e muita enrolação, sabemos que raramente os participantes saem dela com uma lista enorme de definições. E quem, freqüentemente, conduz essas sessões de perda de tempo? Às vezes homens, às vezes mulheres.
Mesmo assim, são as mulheres que levam a fama de pouco assertivas. Quando um de nossos colegas se perde em questões tolas no trabalho, dizem: “fulano é meio perdido”. Mas quando é uma mulher que não se mostra objetiva, qual é o comentário? Que as mulheres não têm objetividade, claro!
A imagem da mulher de pouco objetiva é uma conseqüência da maneira como é construída nossa identidade. Em um artigo escrito pela psicóloga Maria Lúcia Rocha-Coutinho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), denominado “Novas Opções, antigos dilemas: mulher, família, carreira e relacionamento no Brasil”, é possível se aprofundar um pouco mais nisso.
Diz a autora que “características esperadas, ou próprias de algumas mulheres, tais como ‘fragilidade’, ‘intuição’, ‘abnegação’, ‘altruísmo’, ‘docilidade’ e ‘sensibilidade’ acabam por definir a chamada ‘identidade feminina’, isto é, que são vistas como parte da natureza feminina”.
“A definição da identidade feminina sempre caminhou paralelamente a uma maciça discriminação das mulheres. Isto porque, a partir dela, foram negadas às mulheres todas as capacidades socialmente valorizadas e que sempre garantiram a primazia dos homens na vida pública. Assim, perspicácia intelectual, pensamento lógico, capacidade e interesses profissionais e políticos, por exemplo, traços geralmente associados aos homens, sempre foram vistos como antifemininos, afastando as mulheres das esferas de poder e influência social.”
Oras, se nos vemos e somos vistas como frágeis e dóceis, enquanto os homens são tidos como lógicos e perspicazes intelectualmente, dá para entender por que vivemos em condições de desigualdade, não? Porque se esses modelos persistem em nossas mentes e na maneira como nos comportamos em ambiente de trabalho, então tudo, mesmo que de forma velada, continua na mesma.
Mesmo que nos sintamos em plena ascensão profissional, é sempre importante nos lembrar que ainda há um limite bem claro para as mulheres. E não são só os outros que impõem essa barreira. Somos nós, que repetimos o modelinho “mulheres-são-sensíveis-e-homens-são-objetivos” para todo o sempre, amém.
Quanto à segunda parte da declaração do colega reproduzida no começo deste artigo (sobre a falta de comprometimento das mulheres), vamos deixá-la para o próximo artigo, na semana que vem.

[...] artigo anterior, falávamos sobre a imagem da mulher no mercado de trabalho. Apesar de tudo indicar que estamos [...]