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Comprem, comprem, comprem
Muita gente adora falar em consumo consciente, mas nunca acha algo que preste no guarda-roupa
Sustentabilidade, agora, é a palavra da moda. Está nas campanhas publicitárias, nas páginas das revistas, nos prêmios entregues em festas luxuosas. Está nas estilosos recipientes coloridos para reciclagem de lixo, nas obras de arte feitas com garrafas PET, nas roupas produzidas de maneira sustentável. Tudo lindo e muuuuuito fashion!
Recentemente, até inventaram as sacolas ecológicas. Em vez dos cafonas saquinhos plásticos com o logo do supermercado, muita gente aderiu à onda de carregar suas compras com mais estilo e design. Pagam absurdos em sacos de pano de uma marca badalada e se rendem ao consumo de mais uma tranqueira “ecologicamente correta”.
Mas e quando o assunto é moda? Alguém aí está disposta a ignorar as novas tendências e deixar de comprar a bota que vai ser o “must” deste inverno? Ah, nem pensar! Repetir as roupas, então, está fora de cogitação. Afinal de contas, aparecer numa balada com o mesmo vestido da festa anterior é um horror, né, gente?
Quando o assunto é vaidade, o discurso de mundo sustentável vai para as cucuias rapidinho. Nem mesmo as publicações femininas mais descoladas escapam. Todas pregam a necessidade de ter muitas, mas muitas roupas no armário, de preferência com preços absolutamente irreais. Há batas para “ripongas” moderninhas por R$ 150 e sapatos de estilo surradinho por R$ 300.
Soa patético falar em sustentabilidade quando se martela na cabeça das leitoras o quanto elas precisam daquelas roupas esquisitas que compõem o visual andrógeno das magrelinhas das fotos. Mais patético ainda é quando uma pessoa faz o tipo “viva a natureza”, mas é incapaz de viver, periodicamente, sem peças novas no guarda-roupa.
Entre os defensores dessa “sustentabilidade de boutique”, o Yoga sempre está super na moda. Mas um dos pilares dessa prática é o Aparigraha. O significado do termo é não cobiçar, ou seja, pôr um fim ao estranho hábito de colecionar mapas e não viajar. De adquirir conhecimentos e não praticar. De comprar uma calça e nunca usar.
A adoção do Aparigraha neste mundo marcado pelo consumismo está longe de ser tarefa fácil. São tantas as novidades e demandas fabricadas, que a sensação de que está faltando alguma coisa em nossas vidas parece que nunca vai nos largar, mesmo que passemos a tarde inteira no shopping, estourando o limite do cartão de crédito. O copo sempre vai parecer meio vazio. Cabe a nós aprender a enxergá-lo meio cheio. E nos livrar de tanto lixo.
