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Sim, nós temos cérebro

7 abr 2008

Esta história verídica foi contada por uma leitora e amiga do Camaleoa.
Depois de descobrir que eu não passei no concurso deste ano, comentei o fato com a minha professora de francês. Eu estava arrasada e disse que apenas dois garotos conhecidos foram aprovados. A resposta dela foi a seguinte:

- Ah, esses meninos, eles sempre levam a melhor.

E defendeu a tese de que os homens são melhores do que as mulheres porque, apesar de as primeiras serem mais esforçadas, o homem é mais racional e tem perfil empreendedor. Aí deu exemplos absurdos, comparando o filho e a filha, e ainda citou pesquisas em escolas particulares sobre o QI de meninos e meninas.

Moral da história: o mundo está o tempo todo nos falando que somos menos capazes. E veja bem, eu escutei isso da boca de uma mulher!

Pois é. Parece bizarro que a esta altura do campeonato, depois de tantas conquistas femininas, esse tipo de pensamento continue existindo. Mas ele está entre nós, em silêncio. Permeia conversas, dita valores, condiciona comportamentos, por mais que o discurso respeitoso sobre as mulheres diga o contrário.

O mais duro é perceber que, muitas vezes, são as mulheres que disseminam esse tipo de idéia. Em rodinhas no banheiro feminino, não é raro ouvir alguém questionando a capacidade de uma colega só porque ela acaba de ser promovida.

Outro comentário comum é sobre a diferença entre chefes homens e mulheres. Quem nunca ouviu que é muito melhor estar numa equipe comandada por um homem? Dizem que eles são mais racionais e assertivos e, para comprovar a teoria, até se apóiam em pesquisas que mostram as diferenças de comportamento.

Diferenças, entretanto, não significam mais ou menos capacidade. Se fosse assim, bastaria contratar apenas homens que estaria tudo certo. Mas quem trabalha em equipe sabe que não é bem assim. Há muitos colegas que, em uma reunião, precisam do direcionamento e da assertividade sabem de quem? Da mocinha dócil e frágil ao seu lado.

Diferentemente do que o senso comum diz, sexo não determina a competência de cada um de nós. O que nos diferencia é a maneira como exercemos o próprio poder. E nisso, as mulheres parecem um pouco desnorteadas.

Em seu artigo “Gênero e Desejo – a inteligência estraga a mulher?”, a física e filósofa Maria de Lourdes Borges diz o seguinte.

Se no mundo do trabalho e da carreira, exige-se dela persistência na obtenção de seus fins, no território do desejo ela deve tornar-se passiva, ao menos quando se trata de estimular o desejo masculino. Se a mesma posição ativa exigida e estimulada no campo da carreira é utilizada no campo afetivo, e se a mulher decide manifestar seu desejo em relação ao homem, os adjetivos elogiosos a sua postura rapidamente tornam-se pejorativos. Assim, a mulher batalhadora, guerreira e persistente torna-se sufocante, insistente e cansativa.

No estudo, Maria de Lourdes analisa a idéia de que a inteligência é um atributo erótico do homem, enquanto a beleza é o que torna uma mulher atraente. Para isto, ela recorre a Immanuel Kant, filósofo do século XVIII, que dizia que podemos despertar a admiração de um homem com a nossa capacidade intelectual, mas não desejo e amor.

Seria este o nosso temor? Sermos punidas por causa de nossa inteligência e perdermos o afeto de nossos companheiros? Há algumas décadas, quando muitas de nossas avós foram proibidas de trabalhar e estudar, este pensamento poder ter sido, de fato, decisivo para o comportamento feminino.

Hoje, entretanto, quando há mulheres em mais da metade das vagas em universidades e do mercado de trabalho, manter esse modelo é uma questão de opção. Mas enquanto as mulheres repetirem bobagens como a dita pela professora de francês, o senso comum lá dos tempos de nossas avós continuará igual, mesmo que a embalagem seja outra.

Se, de fato, temos medo de perder o amor do homem por causa de nossa inteligência, então estamos falando que a essência do nosso poder ainda está concentrada nas mãos do outro. Como coadjuvantes de nossas próprias vidas.

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