Desserviço público
Comer chocolate está na moda
Hábitos alimentares vão e vem como coleções de outono-inverno. A onda agora é dizer que ele “pode ser devorado sem culpa”
Neste mundo de fórmulas prontas e receitinhas de felicidade, há manuais e dicas para tudo. Para se dar bem numa entrevista de emprego, para arrumar namorado, para juntar dinheiro e até para as necessidades mais básicas de um ser humano. Uma delas é comer. A quantidade de recomendações e proibições é tão grande, mas tão grande, que não dá mais saber em quê acreditar.
Está na capa de uma revista feminina:
Ovo emagrece, carne faz bem e chocolate pode ser devorado sem culpa. Ótimas notícias sobre velhos vilões.
Sim, o chocolate, aquele que causava espinhas e que deveria ser substituído por intragáveis gelatinas diet com sabor de aspartame, agora é o nosso mocinho. Dizem que foram encontrados nele flavonóides, antioxidantes capazes de proteger o coração e prevenir diabetes. Só tem um detalhezinho: diz a matéria que a quantidade deve ficar restrita a 30 gramas por dia da versão amarga do alimento, com 80% de cacau.
Quem passar nas bancas e ler que “chocolate pode ser devorado sem culpa” talvez não entenda que “devorar” significa ingerir 30 míseros gramas de um tipo de chocolate dificilmente encontrado em lanchonetes, bombonieres e supermercados. Mas quem se importa com isso, não é mesmo?
Quando o assunto é alimentação, a maioria das publicações parece ter se transformado em um bando de pombos-correio. Levam e trazem dados e mais dados, sem questionar coisa alguma. Se alguém de alguma universidade obscura disser que pêlo de rato combate celulite, vai ser aquela correria para contar às leitoras a chegada de uma fórmula mágica.
Recomendar moderação e bom senso talvez não ajude nas vendas das revistas. Então, o jeito é destacar bobagens porque, talvez assim, o encalhe de exemplares nas bancas seja menor. Mas será que, daqui a um tempo, alguém ainda vai acreditar nessas matérias de saúde?
