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Ainda somos princesinhas

31 mar 2008

Certa vez, um menino deu a receita para que um colega apaixonado pela garota mais bonita da classe conseguisse esquecê-la. “Para desencanar, é só pensar nela cagando”, disse. “Imagine só a cara dela!” Todos do grupinho caíram na gargalhada, afinal de contas, musa que é musa só vai ao banheiro, no máximo, para retocar a maquiagem.

Procurando bem
Todo mundo tem pereba
Marca de bexiga ou vacina
E tem piriri, tem lombriga, tem ameba
Só a bailarina que não tem
E não tem coceira
Verruga nem frieira
Nem falta de maneira
Ela não tem

“Ciranda da Bailarina”,
de Edu Lobo e Chico Buarque

Eles não são os únicos que pensam assim. Nós, desde pequenas, somos treinadas a nos enxergar como princesas. Aprendemos a não soltar gases porque é feio. A sentar de perninhas fechadinhas porque somos daminhas. Enquanto isso, nossos amiguinhos se divertem com brincadeiras escatológicas. Fazem concurso de arroto e escarram sem a menor cerimônia.

Anos depois, já em ambiente de trabalho, muitos deles deixam claras as suas necessidades fisiológicas para todo mundo do departamento. Sem constrangimento algum, pegam o jornal do dia e caminham, calmamente, até o banheiro. Fazem piadas uns com os outros e adoram escandalizar as mocinhas das mesas ao lado com comentários constrangedores.

Claro que isso não é regra. Nem todos os homens se sentem confortáveis com a exposição de seus hábitos íntimos no meio do expediente, mas, em geral, não tratam o assunto como segredo de vida ou morte. Já para nós, o assunto é um grande tabu. Quem acompanhava o seriado “Sex and City” talvez se lembre do episódio no qual a personagem Carrie ficava arrasada por ter soltado um pum ao lado do amado.

É muito comum ouvir moças e senhoras dizendo que, nem por decreto, conseguem ir ao banheiro fora de casa. Se estiverem começando um relacionamento, então, nem pensar! Mas não foi sempre assim. Carol, de 3 anos de idade, nem se importa em fechar a porta do banheiro depois de anunciar a todos que vai fazer cocô. Abaixa as calças, se senta no vaso sanitário e conta, feliz, como foi a tarde com a sua amiguinha.

Será que um dia a Carol tomará laxantes exageradamente, como fazem tantas mulheres? Será que ela será mais uma a fazer parte do público alvo dos comerciais de medicamentos e alimentos indicados para prisão de ventre? Difícil prever. Mas se começarmos a pensar um pouco sobre a nossa estranha relação com o corpo e o padrão de princesinha que nos amarra, talvez as coisas mudem um pouco. Nesta e nas próximas gerações.

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