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A dor da pele flácida

24 mar 2008

Não importa se temos 20 ou 60 anos. Quando surge a flacidez, vem a sensação de culpa, como se estivéssemos sendo relapsas por deixarmos o tempo passar

Uma mulher pode ter grande sucesso profissional. Estudar muito. Falar várias línguas. Ser ótima esposa. Uma mãe adorável. Uma filha exemplar. Uma grande cidadã. Mas se o rosto dela der sinais de sua idade ou se as suas coxas estiverem mais bambas do que gelatina, dificilmente ela estará feliz consigo mesma.

A dor diante da flacidez chega silenciosa, no espelho do banheiro ou no provador de uma loja. Após examinar, cuidadosamente o rosto, é possível notar uma nova marca de expressão. Apenas de calcinha, observando a própria imagem refletida, é fácil perceber que a textura da pele está mudando. E isso, quem já sentiu, sabe que incomoda.

Lá fora, há um mundo de mulheres magras e eternamente jovens, prontas para nos mostrar o quanto as nossas rugas ou a nossa celulite são inapropriadas. Todas aquelas pessoas dos anúncios e uma infinidade de cosméticos e tratamentos estéticos parecem esfregar na nossa cara a inadequação de nossos corpos. É como se tudo dissesse assim: bem-feito, quem mandou você deixar que o tempo passasse?

Sem querer, começamos a nos cobrar. Lamentamos as horas felizes na praia sem protetor solar e os pratos nada saudáveis que ingerimos. Fazemos um mea culpa por termos deixado os exercícios físicos de lado em nome de longas jornadas de trabalho. Sim, pecamos e agora teremos de pagar por isso com horas na esteira, choques na bunda, injeções no rosto e tratamentos parcelados. É hora de recuperar o tempo perdido!

Depois de muitas privações e sacrifícios, esperamos que a redenção venha no final. Queremos ficar blindadas dos terríveis efeitos do tempo, esse truculento malfeitor. Mas sabemos que, mais para frente, ele voltará, implacável. Tomará a pele de nossos pescoços e enrugará as nossas mãos. Aumentará o diâmetro de nossas cinturas e tornará os nossos braços ainda mais roliços. Criará uma bolsa debaixo dos olhos e uma papada abaixo do queixo. E o que faremos quando isto acontecer?

Muitas pensarão em soluções radicais, ainda mais no Brasil, que está em segundo lugar no ranking de países que mais realizam cirurgias plásticas. Aqui, o corpo é considerado o mais importante capital entre as pessoas, segundo pesquisa realizada pela antropóloga social Mirian Goldenberg. De cada 10 das mulheres brasileiras, seis querem entrar na faca.

Mas por que o público feminino enxerga em uma intervenção cirúrgica a solução para todos os seus problemas? Por vários motivos. Um deles é a dificuldade de aceitar a própria finitude. A flacidez da pele não é uma mera inadequação estética, mas um sinal de que, sim, o tempo está passando.

Outra razão é o corpo “ideal” – desses de revistas –, que continua sendo tratado como a única forma para uma mulher existir plenamente neste mundo. Somente quem está dentro dos padrões vigentes se sente habilitada para arrumar um parceiro ou conquistar um emprego.

O corpo tem sido a arma da mulher para tudo há séculos. Usando suas formas físicas, ela desperta desejo, curiosidade, cobiça. Consegue afeto, sucesso, estabilidade. Só que de tanto usá-lo, acaba passando a existir no mundo só por causa dele. Quando fica fora do padrão estético vigente, sofre profundamente, como se fosse apenas vítima da situação, não agente.

Enquanto mantivermos nosso foco sobre o corpo ideal que nos vendem, continuaremos frustradas e sem voz. E para isso, não há plástica que dê jeito.

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