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O freio de mão

3 mar 2008

Por um grande amor, somos capazes de paralisar projetos pessoais. Depois nos frustramos e jogamos isso na cara deles. Pode?

Ela bem que tentava disfarçar, mas quando a janelinha do messenger com o nome dele piscava na tela do computador, o sorriso vinha largo, verdadeiro. Seus dedos corriam, ligeiros, pelo teclado.

- Tenho uma festa da empresa hoje à noite, contava entusiasmada.

- Que legal! Eu tô convidado?

Claaaaaro, ela digitou. Mas seus dedos pararam antes do enter. De repente, uma sensação incômoda nos pés a paralisou. Amanda percebeu que seus calcanhares estavam a muitos centímetros do chão. Debaixo deles, um salto agulha a separava do mundo das mortais do escritório.

Mas não foi a dorzinha suportável que deteve sua resposta. O que a incomodava era a imagem dela abraçada a um pigmeu durante a festa. Rodrigo era mais baixo do que ela e ficaria menor ainda se ela surgisse, poderosa, em seu par de escarpins envernizados. Mesmo assim, Amanda não pôde negar o convite ao amado. Enter apertado, a conversa esfriou.

Em poucos minutos, o ruído de seus próprios passos passou a irritá-la. Ficou descalça. Ainda assim, sua cabeça não parava. Por volta das sete, saiu do trabalho. “Até amanhã”, disse alguém. Sem resposta. Amanda mal movia as pálpebras. A respiração estava curta, limitada ao peito.

A calçada, naquele dia, estava exageradamente irregular. O percurso, parecia mais longo. A batata da perna, mais pesada. Mas foi naquele final de tarde, naquela quadra, que Amanda encontrou a redenção. Estava lá, na vitrine de uma loja de calçados. Minutos depois, Amanda saiu triunfante da loja em um par de rasteirinhas. Mais baixa e de volta ao mundo das mortais.

Se você se reconheceu na história acima ou se lembrou de alguma amiga querida, seja bem-vinda! Esta é apenas uma das facetas da camaleônica alma feminina. Um lado que prefere encolher, literalmente, para ficar do mesmo tamanho do companheiro.

É fácil cair nesse padrão. Se o moço está mal na vida profissional, sem querer, a gente se esquece do prazo de matrícula daquela pós. Desencana daquela promoção na empresa. Adia o plano de morar no exterior. Porque o que importa agora é reanimá-lo. O que importa é andar lado a lado com ele, como irmãozinhos siameses.

Puxar o freio de mão seria um ato de grandeza? Um exemplo de generosidade e desprendimento? Difícil dizer. Amanda não queria que Rodrigo parecesse baixinho demais. Nem ao olhar dos outros nem para si própria. Porque a idéia que ainda prevalece é a de formar pares iguaizinhos. Altos devem namorar altos, magros devem se envolver com magros e por aí vai.

Desde a infância, a gente aprende que homens precisam ser altos. Fortes. Bem-sucedidos. Não é isso que acontece, claro, mas a ordem geral é arrumar um Ken para a Barbie. E se ele não for um Ken ou um daqueles sujeitos que transpiram autoconfiança num comercial de banco, a gente se pergunta para quê ser uma daquelas saltitantes moças de anúncios de absorventes.

Parece uma armadilha boba, mas como acontece! Em vez de caminhar para frente, a gente marca passo à espera do companheiro. Em vez de ir atrás dos próprios sonhos, a gente fixa o olhar no outro. E depois? Bom, depois, o jeito é jogar todas as frustrações na cara dele. E ainda querer reconhecimento para algo que provavelmente ele nunca pediu.

A idéia de que precisamos andar lado a lado ou atrás dele está impregnada em nossas mentes desde sempre. Basta lembrar da culpa que tantas mulheres sentem por ganharem mais do que seus maridos. Mesmo assim, tudo a nossa volta nos vende a imagem de que somos livres e donas de nossas decisões. Será mesmo?

PS: a história de Amanda é baseada em fatos verídicos. À inspiradora deste episódio, todo o meu carinho e respeito.
PS 2: perdoem-me, baixinhos e baixinhas. Este foi apenas um exemplo usado por esta pessoa de baixa estatura que vos escreve.

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